domingo, 18 de julho de 2010

A menina

A menina de saia branca ensaia um muxoxo. Quanta vontade de poesia existe dentro dela. Mas nada lhe vem para contar ou cantar. Tédio.
A saia branca de renda rodopia no corpo. É só abrir os braços e deixar a música entrar, pra dançar e dançar. Mas a música não lhe chega a tocar os ouvidos. Tédio.
Brancas também são as mãos da menina. As unhas rosadas quase transparecem o medo que ela tem. De que tens medo menina? 
A vida passa em brancas nuvens pela janela. E a menina observa o correr dos anos amarelar os dentes, amarelar a saia, amarelar as unhas... O tédio é amarelo, pensa.
A vida passa e os temores sempre se confirmam. Que há que não há? Não há nada. Nada, depois de nada.
Só nuvens brancas a passar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Oração ao sol

sol
tu que me douras
pelos e pele
que me esquentas 
e acalentas na face
fazei de mim
uma obra tua
deixai-me as marcas
do teu amor ardente
quero ser nua
uma lembrança tua
na escuridão dos quartos
amém

domingo, 11 de julho de 2010

Saudade Azul

Não sei o que fazer com esse céu sem nuvem
é tanto vazio que meus olhos azulam
e de tão cheios de azul
transbordam
e choram

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ilha

pedaço de solidão cercado de mar
que nada possui de seu para dar
apenas água e sal das ondas
que batem e rebatem na praia
a ilha cansada de tanto ar
se deixa engolfar
por um céu tão azul quanto o mar          
a fenda          abre devagar
ranhadura na carne da terra
a ilha entrega
ao azul do céu e do mar
a dádiva última
que nasce
no silêncio
da flor

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Na minha boca

mora na minha boca
o gosto do teu desejo
ondeante

onde antes
moravas em beijo
o sol saliva na linha da língua

sábado, 19 de junho de 2010

Navegante sem rumo

              os limites me forjam

                                    quem sou fora dos meus limites?

                   os limites me fogem

                                                                eu me surpreendo de mim

os limites me forram

                                   desenhos se perdem no mar

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Feche a porta do quarto

Feche a porta do quarto
nós sós com nossos olhos
as roupas escorrem lentas
dos nossos corpos fragéis
na sua humanidade triste

Transforme o leito num barco
que sós nós damos nós
tão próximos que dentro
sol intenso lua fria somos deuses
num mundo rumoroso

Assista o gozo das estrelas no infinito
Nossos olhos graves gravam a passagem
da intimidade santa que explora
os sujos territórios virgens
de um tempo que vai ao longe

domingo, 13 de junho de 2010

A página em branco

Gullar diz que quando começa a escrever a página está em branco. Folhas brancas são mesmo excitantes e cheias de possibilidades. Mas a partir do momento em que se escolhe uma palavra as possibilidades diminuem. Está certo. Gullar sabe o que está dizendo. Se por acaso escolho falar sobre beijo. As multidões de possibilidades desaparecem. Não porque quando me lembro de beijo, só me lembro do seu beijo, mas porque quando os meus lábios tocam os seus todo o resto desaparece. E mesmo se eu digo chega ou pára, é porque a sensação é tão forte que poderia me desmanchar de repente e o medo de dissolver-me obriga-me a voltar a mim. Voltar a ser uma só pessoa, porque, com você, é como se eu perdesse-me de mim e virasse por um instante um confuso de nós. Quando eu não sou mais eu, por um nada de tempo, é como estar em casa. Os americanos têm essa frase/expressão que diz assim It feels like home, é assim mesmo  que é o momento do perder-me num beijo. Esse desaparecer num mar de sensações que são leves e pesadas, doces e amargas, momentâneas e eternas.
E eu bem podia ser para você essa página em branco que o Gullar fala. Daí você bem que me poderia escrever em cima um livro. Como naquele filme lindo que nunca assistimos juntos em que a moça escreve na pele dos seus amantes nus, não sei se antes ou depois do amor. Certo, eu não sou assim uma página em branco, há em mim todas as coisas que sou ou penso que sou e que vivo alardeando em palavras. Mesmo aquela história de atirar o útero na parede, que é da boca para fora, e de não ser feminina o bastante, ou de ser mais macho que muito homem é feminismo de meia tigela que se derrete e desaparece só de ver seus olhos brilharem em cima dos meus. Eu viro mulherzinha, faço beicinho e sorrio para ver você sorrir  e, se for preciso, tiro os óculos pesados e ponho lentes para combinar com os vestidos que nunca uso.
Mas se for para escrever em mim, sua pseudo página em branco, terá de escrever com os lábios porque nossa história merece o encontro de lábios com lábios. Pois a coisa mais linda do mundo é ver como seus lábios trabalham bem sobre a minha pele. E se for de seu agrado, porque, desde que me tornei mulherzinha, passei a gostar de fazer agrados, posso também fingir que você é minha folha em branco. Farei em você muitos versos e usarei muitos beijos para imprimir belos poemas na sua pele alva.
Seria bom essa troca de poemas porque, uma vez que eu não sou eu quando nós, você também não é você. Por um átimo de tempo podemos nos tornar duas páginas em branco e começar de novo. Ou não. Mil  e uma possibilidades diante das páginas em branco. Se escolho outra palavra, talvez separação, a história termina de outro jeito. Ou não termina, pois não...

sábado, 12 de junho de 2010

Aquilo que me falas

Aquilo que me falas
através dos dedos
que se deslocam
lentos em sedosas
carícias

Aquilo que me falas
com olhos mansos
que se demoram
nas esquinas lodosas
do meu corpo

Aquilo que me falas
com a língua cheia
de versos que passeia
pelos cantos e guarda
o prazer do mel

Aquilo que me falas
com os lábios colados
nos meus que selam
as palavras perdidas
no nosso silêncio

sábado, 5 de junho de 2010

Citação

"Não se apresse em acreditar em nada, mesmo se estiver escrito nas escrituras sagradas. Não se apresse em acreditar em nada só porque um professor famoso que disse. Não acredite em nada apenas porque a maioria concordou que é a verdade. Não acredite em mim. Você deveria testar qualquer coisa que as pessoas dizem através de sua própria experiência antes de aceitar ou rejeitar algo."

(Siddartha Gautama, o Buddha, Kalama Sutra 17:49)