Morrer faz parte da vida,
todo mundo que nasce um dia morre,
ou, muitas vezes, morre antes de nascer,
então, faz parte do problema de viver,
um dia não mais viver, morrer.
Na maior parte do tempo corremos da morte,
vamos ao médico sempre que adoecemos,
tomamos remédio, usamos óculos, passamos creme,
protetor solar, nos alimentamos com cuidado, fazemos exercício,
cuidamos do corpo e do espírito, trabalhamos, descansamos,
tudo para manter a boa saúde e viver mais e melhor.
Mas o fato é que nada disso adianta,
pois um dia chega a dama branca,
com sua foice gelada e nos sorri com dentes perolados,
e, sem outra escolha, nos abandonamos a ela, deixando para trás
toda a família, que tanto amamos, protegemos e conservamos,
também ficam os bens que adquirimos com esforço e suor,
a bela casa, o carro imenso, as roupas de marca, compradas no shopping,
as jóias que usamos tão pouco, com medo dos ladrões.
Nada mais óbvio que a morte, não importa de quê morremos,
O que importa é que esta bela senhora vestida de branco com sua linda e afiada foice,
chega.
Chega sorrindo sempre com seus dentes perolados e não há como fugir desta sina.
Ela está esperando a hora certa, ou incerta, ou talvez nem seja isso,
ela está aqui ao meu lado todo o tempo esperando a sorte ou acaso,
uma doença mais grave que este resfriado, ou um acidente mais ferrado,
ou talvez ela esteja esperando eu me decidir
'corto ou não corto esse pulso direito?'
pois alguns amam mais do que eu essa dama branca,
e morrem mais e melhor do que eu
todos os dias,
às vezes, mais do que nascem,
morrem...
Mas um dia será O dia, também o meu e dos outros,
não tem tanto drama com dizem, pois afinal, é o final,
aquele que tanto aguardamos no cinema ou no teatro,
quando assistimos um suspense, ou que nos faz saltar as páginas de um livro,
pra saber quem é o bandido e se alguém vai morrer logo, ou se demora ainda,
ou se vai se salvar e o no fim tudo fica bem, se há casamento, e filhos e happy end
Só que na vida real o fim não é agarrar a noiva pelos cabelos e tascar-lhe um profundo beijo,
nem tanto isso, porque este é só o começo, enfim, depois do casamento, e dos filhos, e de tudo o mais que:
Mais que tudo, o fim é quando finalmente se morre,
porque só depois disso é que as pessoas dizem
"esse era um bom sujeito"
ou dizem, "vaso ruim um dia quebra",
mas dizem tudo isso porque era razoável que um dia todos morrem.
Um vazio profundo, portanto, se estiver procurando algo, pule para o próximo blog.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Animal
ele está lá
espreita e espera
sem descanso
o que ele quer?
esta carne
que ele ataca
que ele arranha
que ele odeia
que ele ama
deseja destruição
dilacera
devora
delicia
e se alimenta
de mim
esta carne
deprezada e desejada
amada e odiada
carne podre
meu cadáver
espreita e espera
sem descanso
o que ele quer?
esta carne
que ele ataca
que ele arranha
que ele odeia
que ele ama
deseja destruição
dilacera
devora
delicia
e se alimenta
de mim
esta carne
deprezada e desejada
amada e odiada
carne podre
meu cadáver
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Lago Azul
Lago de São Simão
Amanhecer
todos os dias
amanhece
mas
raramente
a gente
amanhece
azul
ondulante
azul
deslizante
azul
cortante
azul
mareante
azul
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Palavra
doce e delicada
ela despe
e pede
ela chora
e implora
ela úmida
e soa muda
ela cicia
e delicia
ela a pa
lavra
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Perfume
Brota do interior
de uma ferida
Escorre gotejante
pelos poros puros
Um cheiro triste
silencioso olor
sabor de morte
Carniça
de uma ferida
Escorre gotejante
pelos poros puros
Um cheiro triste
silencioso olor
sabor de morte
Carniça
sábado, 24 de outubro de 2009
Meditação transcendental
parar de pensar
é difícil
mas
como eu quereria
parar de pensar
por um só instante
parar
de
pensar.
é difícil
mas
como eu quereria
parar de pensar
por um só instante
parar
de
pensar.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Ser mulher
Uma experiência interessante é tentar analisar as mulheres nos dias de hoje. Ser mulher atualmente é bem diferente de como era na primeira metadade do século XX. Se antes parecia destino certo para todas o casamento e a maternidade, e quem fugia disto era considerada uma verdadeira pária, um ser basicamente marginal, visto ora com receio ora com desprezo, agora já não é mais assim.
As mulheres podem escolher mais os seus próprios caminhos. Podem estudar e seguir uma carreira profissional, e decidir se querem casar ou não, ter filhos ou não, morar sozinhas ou acompanhadas, ter um companheiro fixo ou ter vários, etc. Já não é tão rígido o olhar sobre a mulher sozinha e nem a mulher casada goza de uma posição privilegiada como antes. A maternidade, apesar de continuar sendo cobrada, afinal "uma mulher só sente realizada quando é mãe" (segundo alguns), não é impossível que uma profissional de sucesso abdique de ser mãe em prol da carreira. Isso já não é consideradao como um pecado mortal.
Parece que, enfim, as feministas venceram. Nós estamos num momento em que somos de fato consideradas com um valor semelhante ao valor do homem dentro da sociedade. Todavia, parecer não é ser realmente. Podemos começar a duvidar desses ganhos femininos a partir do momento que observamos a relação das mulheres com o próprio corpo. Muitas mulheres têm se mutilado periodicamente em cirurgias plásticas, têm se privado de alimento e morrido de inanição pelo fato de precisar apresentar uma magreza exagerada para ser considerada bonita, têm experimentado a maravilhosa sensação de colocar formol nos cabelos para fazê-los lisos... e isso são só alguns exemplos.
Essa maneira de encarar o corpo como um inimigo a ser dominado, domado e modificado, tem como objetivo torná-lo cada vez mais perfeito. E isto tanto pode ser para atrair o sexo oposto, ou seja, transformar o corpo num objeto sexual, como também pode ser para demonstrar poder. As mulheres realmente poderosas conseguem até mesmo dominar a natureza e impedir seus frágeis corpos de envelhecer. É um mundo de aberração este nosso. Mulheres agora são de plástico, todas nós bonecas de plástico, Barbies gigantes... Se por um lado alcançamos uma liberdade nunca antes experimentada, por outro estamos cada vez mais presas. As mulheres por enquanto continuam vítimas de uma perversão: o olhar do outro machuca mais a elas que aos homens. Sempre.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Eu não sei o porquê...
Por que esse cansaço estranho, se até agora não fiz nada?
Por que essa sensação de absurdo, se ainda não há erro?
Por que essa vontade de não ser, se nunca fui de fato?
Por que essa sensação de absurdo, se ainda não há erro?
Por que essa vontade de não ser, se nunca fui de fato?
sábado, 17 de outubro de 2009
Em comemoração ao dia dos professores
A vida não é fácil para ninguém, é verdade. Mas ainda assim corta o coração ver uma criança ter responsabilidades de um adulto. Outro dia encontrei um menino assim. Ele é sisudo como só um pai de família deveria ser. Um rapazinho miúdo e de óculos que nunca sorri. Na escola, ele senta na primeira carteira, não conversa, e presta bastante atenção na aula. Às vezes faz umas caretas, parece não estar bem, mas eu acho que na verdade deve ser dificuldade de entender o que está sendo dito.
São muitas as preocupações que atormentam aquela cabecinha. Ele me contou que tem três irmãos. Um mais velho e dois mais novos. Moram com a mãe, do pai nem uma palavra, também não perguntei. No dia em que conversamos, Rondney (é esse o nome dele) estava fazendo prova de inglês reclamando que não teve tempo de estudar. Por quê?
_Tive que levar meus irmãos no dentista_ respondeu sério.
São muitas as preocupações que atormentam aquela cabecinha. Ele me contou que tem três irmãos. Um mais velho e dois mais novos. Moram com a mãe, do pai nem uma palavra, também não perguntei. No dia em que conversamos, Rondney (é esse o nome dele) estava fazendo prova de inglês reclamando que não teve tempo de estudar. Por quê?
_Tive que levar meus irmãos no dentista_ respondeu sério.
_E a sua mãe? Você não disse a ela que precisava estudar?
_Disse, mas ela ia lavar roupa.
_Disse, mas ela ia lavar roupa.
Lavar roupa! Veja: Rondney é um menino minúsculo, parece até um boneco de tão pequeno. Ele diz que tem doze anos, mas não aparenta nem dez. Mesmo assim ele pode pegar os dois irmãos caçulas e levar ao dentista, para ajudar a mãe que além de estar ocupada ainda paga a passagem do ônibus. Ele não paga, é muito pequeno. E seu irmão mais velho?
_Aquele lá ninguém entende. Ele quer ser mala. Para ele, meus irmãos são um peso. Eu que tenho de tomar conta deles.
Coitadinho. Tão novinho e já entendendo tanto do mundo. Com tanto peso no peito e nos olhos. Uma experiência incrível olhar nos olhos de um menino adulto. Não há leveza, nem brilho nesse olhar. Pelo contrário, o rosto dele é uma aberração. Demonstra um sofrimento, um cansaço, muito incomum.
Algumas mulheres mereciam nascer secas. Fertilidade para elas é inútil, pois põem no mundo pequenos sofredores. Crianças tristes, para quem até a esperança surge no horizonte como utopia: distante e inalcançável.
_Aquele lá ninguém entende. Ele quer ser mala. Para ele, meus irmãos são um peso. Eu que tenho de tomar conta deles.
Coitadinho. Tão novinho e já entendendo tanto do mundo. Com tanto peso no peito e nos olhos. Uma experiência incrível olhar nos olhos de um menino adulto. Não há leveza, nem brilho nesse olhar. Pelo contrário, o rosto dele é uma aberração. Demonstra um sofrimento, um cansaço, muito incomum.
Algumas mulheres mereciam nascer secas. Fertilidade para elas é inútil, pois põem no mundo pequenos sofredores. Crianças tristes, para quem até a esperança surge no horizonte como utopia: distante e inalcançável.
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