segunda-feira, 23 de março de 2020

Corona que não é vírus

O nome da minha cachorra é Corona. Não fui quem escolheu esse nome. Quando ela chegou para mim em abril do ano passado, com 10 meses de idade, só atendia por Corona. E olha que eu tentei mudar o nome dela, tentei chamá-la de Fiona, mas a bichinha não conseguia entender o novo nome. Aí não insisti na mudança. Nem imaginava naquela época que Corona era um tipo de vírus.

Corona é super bem comportada, obediente e medrosa. Apesar da aparência de má, é uma boxer custosa e amorosa. Tem um bocão gigantesco e a língua dela não serve para lambidas. Quando ela resolve lamber, parece mais que ela está dando banho na gente.

Eu amo o latido dela. Ela tem aquele tipo de latido imponente que os cachorros grandes têm, daqueles com tons guturais, que fazem a gente pensar em braveza. E ela late muito. Late de curiosidade. Late quando vê coisas diferentes. Late quando está com medo. E quando ela está com medo, até eu fico com medo dela.

Corona esbugalha os olhos, ergue o pescoço, estica o corpo para parecer maior. Os músculos e veias saltam. A boca espuma e ela salta. Latindo alto e grosso, assustadora. O medo dela dá medo nos outros.

E agora pensando no medo, digo: estamos todos com medo de Corona... E não é da minha cachorra.

Perto do vírus, os olhos esbugalhados e o latido gutural da minha filhota mete muito menos de medo.

Eita nóis! Eita vida louca que Deus nos deu!

sábado, 21 de março de 2020

Possíveis impactos positivos da pandemia

Eu tenho um otimismo desenfreado e sempre tento encontrar lado bom em tudo o que acontece. Mesmo agora diante da pior crise sanitária que jamais vivemos, estou em busca de boas notícias. E tendo a imaginar duas coisas possíveis de acontecer que me parecem positivas: 1- uma mudança na maneira de nos relacionarmos uns com os outros, com mais solidariedade e menos individualismo; 2- um impacto ambiental positivo, devido a redução de emissão de poluentes. Talvez no meio de tanto pânico, essas duas coisitas positivas possam guiar o olhar das pessoas para uma outra realidade, melhor do que esta que vivemos.
Quando nos mandaram ficar em casa para evitar a propagação do Coronavírus que provoca a doença COVID-19, primeiramente, entramos em pânico. Até eu fui parar no supermercado no intuito de estocar comida, para passar o período de isolamento sem risco de passar fome. Mas, aos poucos, o medo de adoecer foi se tornando uma vontade de proteger os menos favorecidos que nós. Eu e quase todas as pessoas da minha família temos plano de saúde, temos condições de comprar medicamentos e produtos de higiene pessoal, podemos tranquilamente passar por esse momento difícil. Entretanto, a grande maioria da população brasileira não possui essa mesma condição. Dessa maneira, para contribuir com as pessoas que mais sofrerão com essa crise, o melhor que podemos fazer é seguir a risca as medidas de segurança propostas pelas autoridades. Ficar o máximo possível em casa é olhar pelos outros.
O risco que corremos pensando assim é o de nos tornamos mais solidários, pensando de maneira sistêmica. Estamos diante da possibilidade de compreendermos que a vida neste mundo é de interdependência e que de fato precisamos compartilhar um pouco do temos com os outros. Além disso, a minha saúde contribui com a sua, precisamos nos cuidar para cuidar dos outros. Tantas vezes pensamos de forma egoísta em nós, agora pensar em nós é também pensar no próximo. Por que vivemos numa comunidade, a minha vida influencia na sua e vice-versa. Contudo, a menos de uma semana atrás muita, mas muita gente não pensava assim. Muito educativa essa crise, uma oportunidade única de todos entenderem que estamos mesmo juntos nesse barco.
Quanto ao impacto ambiental, imagine a quantidade pessoas que pararam ao mesmo tempo. Nada de carros na rua, consumo desenfreado e nem viagens de avião estamos fazendo. As indústrias diminuindo radicalmente a sua produção, os funcionários ganhando férias coletivas. O mundo todo em ritmo de marcha lenta... Além da depressão econômica que todos falam, imagina a diminuição extraordinária na emissão de poluentes. Isso é fantástico! Se eu fosse pesquisadora nesta área, estaria empolgadíssima com as pesquisas que podem ser realizadas, com os dados únicos que poderemos ter com essa história toda. Não sabemos exatamente quanto tempo isso vai durar, julga-se que alguns meses, talvez um semestre. Isso pode ser tão produtivo para as pesquisas científicas sobre o aquecimento global! Uma nova forma de os seres humanos atuarem no mundo pode ser pensada a partir desse grande problema que enfrentamos.
Evidente que será um dos piores momentos da humanidade dos últimos tempos, que contaremos muitas histórias tristes, que perderemos pessoas que amamos... Não estou de forma nenhuma tentando diminuir o problema da pandemia que passamos. Mas não quero focar só nos problemas, só nas tristezas. Quero encarar a crise como oportunidade de aprendizagem e de mudança. Quero entender que tudo que nos acontece de ruim pode nos melhorar enquanto indivíduos e, por consequência, nos melhorar enquanto sociedade, pois são os indivíduos que formam a sociedade.
Acredito que essas minhas palavras sejam bastante ingênuas... que os críticos me acusem de ingenuidade, mas não posso me imaginar me entregando a pânico e desespero, não é do meu feitio. Gosto de enfrentar crises, sempre acho que saio melhor delas. Que essa minha ingenuidade e otimismo me salve também desta pandemia de medo... e ajude alguém. Quem sabe?

Fabi Lula

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sobre mudanças


Esta aí sou eu. Nas duas fotos. É um famoso "antes e depois".


Lendo o que escrevi sobre o ano novo, discordo de mim: não é verdade que as coisas não mudam. Meu corpo mudou muito entre dezembro e março. O susto levado no fim do ano com o meu peso, me levou a uma busca pela reeducação alimentar e pelo exercício físico. Procurei o nutricionista, o personal trainer, obedeci a dieta (mesmo sofrendo no começo), comecei a musculação.
O resultado de tudo isso? Estou me sentindo muito bem: minha energia para fazer todas as coisas rotineiras, do trabalho ao estudo, aumentou de maneira vertiginosa! Além disso, o corpo da primeira foto, mais pesado e mais lento, tornou-se o corpo da segunda foto, ágil, leve e forte. Eu me sinto mais bonita, mais confiante, mais contente comigo mesma. 
De imediato, antes do resultado estético, senti o benefício psicológico: fiquei feliz por finalmente estar cuidando de mim. Minha autoestima esteve baixa por muitos anos e deixei de lado os cuidados com a saúde e o corpo... Sobrepus, antes de tudo, o meu trabalho... Depois coloquei os estudos em segundo lugar... Em seguida, a família e suas demandas... Não achei tempo para mim mesma.
Quando percebi isso, me voltei para mim e me perguntei: o que há? Por que você não se gosta? Por que você não se cuida?
Não há uma só resposta, mas várias para estas perguntas. Me deixei de lado por tantas coisas... Principalmente, por não me amar o suficiente, por não me perdoar por tantas ninharias... Ao perceber essa situação, me busquei de volta do limbo. Me coloquei de volta no meu lugar. Sou eu a minha prioridade. Tudo o que eu faço depende de mim mesma. Se não houver saúde e autoamor, como farei todas as outras coisas?
Cuidei-me. Gostei de comer melhor. Amei a musculação. Fiquei muito orgulhosa de mim por tamanha mudança em tão pouco tempo. 
E impressionei-me com a minha capacidade de promover mudanças! Mudanças na minha própria vida, diga-se de passagem. Não é preciso ser fatalista, dizer que "pau que nasce torto, morre torto". É possível mesmo. Eu fiz. E foi muito mais prazeroso do que sacrificante.
Se Ghandi um dia disse: "Seja você a mudança que você quer ver no mundo", vamos ser. Parece-me que a mudança física, tantas vezes desacreditada, veio de uma mudança interna. Com isto, a lógica me diz que outras mudanças no mundo podem se alcançadas também por mudanças internas.
Viver neste mundo, neste contexto de loucura, exige que repensemos nossas vidas, nossas rotinas, nosso autocuidado, nosso cuidado com os outros, nossas palavras, nossa relação com o ambiente... Que possamos praticar a mudança em todos níveis. Se não promovermos essa alteração em nossas vidas, não vejo como ter o mundo que nós queremos. Nesses tempos distópicos, busquemos mais do que nunca nossas utopias. Mesmo que elas estejam distantes.
Esperanças vãs, dirão. Mas antes ter esperanças vãs, do que não tê-las.