domingo, 14 de outubro de 2018

Adeus para nunca mais

"É preciso aprender a dizer
em silêncio
Adeus...
Até nunca mais"

Por favor,
me diga: "quando é nunca mais?"

Te espero na terra do nunca mais
Onde todos somos como crianças
mortalmente
feridas

Adeus
Nunca
Mais

(cada dia passado      como gado    ruminando sonhos)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Poesia solar


O sol

Tão quente

Tão tarde quente

Tão cheia de poesia             quente

Que sobe no ar

Feito nuvem

De fumaça de fogo

Entorpecente

Tão sol quente

Sonho

Era num barco assim que estávamos... eu, os gêmeos, a mãe deles. Era um índia, eu sabia. Muito pequena e mirrada, mãe de duas crianças. O barco era branco com azul. Tudo era muito claro. O clarão de repente tomou conta de tudo. Consumiu as crianças, a mãe e o barco.
Aos poucos o clarão diminuiu e o mundo tomou outra forma... escureceu... ficou meio marrom. Ele veio até mim, meio nebuloso, uma penumbra envolvia tudo, e me entregou um coelho pequeno e marrom.
E eu soube que era dia de esperar, de esperança, dias de vir criança ao mundo. Ela está vindo. E é um menino.

Não

Era uma noite escura
O movimento dos olhos
Ondeando
Nuvens

Ao meu lado
Ao alcance de um leve toque
Um suspiro
de não poder

Por que não eu?
Porque não...
Porque não.
Um NÃO se expande pelo universo

Uma noite escura sem estrelas
A desesperança
Assume seu posto
E diz não

                    Não
             Não
      Não

Sempre saudade

Essa saudade é faca
Que anda por dentro
Escavando buracos
Nas minhas entranhas

Essa saudade é gelo
Que fere e queima
Um coração que para
De frio

Essa saudade
Da vida
Não vivida
Do beijo
Nunca dado
Do amor
Nunca entregue

saudade aço pontudo
saudade pedra de iceberg
pesa e dói
e doerá pra sempre?

sempre saudade
do que não há?

Sempre?



domingo, 25 de junho de 2017

Imagina

Imagina se um dia
Eu
For
Eu
De verdade

Sem os clarões escuros que atravessam
Eu

Imagina um Eu límpido
Sem manchas
Parecendo
Eu

Imagina Eu sendo Eu todo o tempo que Eu
Tenho

Ai, Eu!

sábado, 24 de junho de 2017

Insana

Agulha no olho
Fagulha na alma
Debulha o milho
Derrama a calma

sábado, 19 de novembro de 2016

A vida é finita. 
Uma constatação óbvia.
Eternamente, enquanto a vida dura,
Lembraremos dos que se foram.
Outra constatação óbvia.
E, dentro das obviedades da vida,
foram-se treze anos sem Irene, a bela,
E quatro meses sem João Batista, o sábio.
Que as pessoas não voltam depois de apagada a fagulha da vida: óbvio.
Que a gente fica perdido entre as memórias e as saudades:
não tão óbvio assim.
Saudades é para sempre?

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Absurdo!

É um absurdo total o que estamos vivendo! É o cúmulo do absurdo! Não dá para suportar mais essa realidade em que os homens da lei, investidos da autoridade que o estado lhes concedeu, resolvem que podem violentar os professores e os estudantes que lutam pelos direito de manter a educação pública com um mínimo de qualidade e para todos. 
Educação laica de qualidade e para todos deveria ser um consenso.Todos deveriam estar lutando lado a lado para obter esse ideal.
Mas não é o que vemos: quando o governo propõe uma solução para a desordem dos gastos públicos, onde é que está escrito que cortar na carne dos pobres é a coisa mais certa a se fazer? Pior: onde é que está escrito que a gente deve sentar e ver o mundo que queríamos se despedaçar na nossa frente calados?
O projeto neoliberal de privatizar tudo já está em ação: diminuir os investimentos em educação e saúde significa inviabilizar a existência das escolas e hospitais públicos, os quais em breve serão entregues para a iniciativa privada.
E quem não tiver dinheiro para pagar, como é que faz?
Essas pessoas não existem nesse projeto de governo.
Nós, seres pensantes, nos tornamos perigosos nesse projeto de governo.
Nós também deixaremos de existir.
Vamos logo ser abafados, silenciados, com toda a força que repressão violenta tiver.
É o fim do mundo.
Do nosso mundo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eu protesto contra a Morte no dia de finados
Eu protesto contra a Morte no dia de finados
Destroem os nossos direitos
Nos arrancam a nossa democracia
(fragilzinha, pobrezinha, desmanchou-se com facilidade)
Nos enganaram dizendo que a educação ia funcionar agora
Mas deformaram o ensino médio com uma canetada
Tiraram de nós a arte, a arte, arte de pensar
Esvaziaram dos nossos corpos, o cérebro
Nos chamam de doutrinados
Querem que sejamos “sem partido”
Porque tomar partido é crime
Porque tomar partido é ser pensante
E pensar é crime também
Destroem os nossos direitos
Nos incriminam, cortam os nossos salários, nos ameaçam de demissão...
Vamos ser demitidos
Vamos ser pisoteados
Vamos ser machucados por dentro e por fora
Humilhados
Manchados
Maltrados
Seguiremos
Cantaremos nosso réquiem
Em frente, marcharemos para a morte
Eu protesto contra a nossa Morte no dia de finados
Morte do nosso mundo
Nossos sonhos sólidos se desmancham no ar
Teimamos
Nos transformamos
Nos recriamos
Das cinzas, surgirmos
Fênix mágica
Ave mitológica
Somos nós
Nós que não aceitamos o enterro
Que dos túmulos saltamos
Prontos para refazer o que sempre fizemos
Os sonhos
Levantamos das nossas tumbas
Pois nossa Morte se reveste de dor de interrompimento
Nossa morte resvala na ponta do sonho
E o sonho que nos puxa de volta
Nos busca no ventre da terra
Pisoteados que estávamos
Feridos que estávamos
Voltamos
Saímos de dentro do ventre da terra
Sujos do sangue da terra
Da terra refeitos
Os sonhos
Corremos de volta à luta
Os criminosos rechaçados
Os imundos seres pensantes
Os pedintes das ruas
Os reivindicantes
Os que exigem
Os direitos diretos
Os retos
Os tortos
Ainda que andasse pelo vale da sombra da morte
Nada temerei
Porque eu morro
Porque eu desmorro
Raivosamente lutando
De luto
Enlutado
Enlutando
Pelo que sonho
Eu protesto contra a Morte no dia de finados
(eu, Fabiana Lula, poetando no dia de finados, 02/11/16)