terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Violeta

Pingavam violetas de seus olhos chorosos...
"O amor de um Deus
É tantas vezes
Cruel!"

A vitela pasta pelos campos
E chora.

Quem viu a Viola? Quem viu?
Quem viu a Violeta?
Viu dores de amor correspondido...

Tocar solitária o solo,
Um corpo que não te pertence:
Ao medo da eterna destruição,
À falta de amor divino.

As flores que surgem das lágrimas,
Miudezas azuis,
Lembranças das riquezas de outra vida...

"Meu Deus, meu Deus
Por que me abandonaste?" _ grita ela para o céu fechado.

Vitela de Deus posta em sacrifício, pasta e chora.
Chora violetas tristes
Azuis arroxeadas.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Chuva de Ouro

O desespero é amarelo
E escorre em cachos pelos ramos
Um corpo suspenso
No ar quente

Me observa a calçada angustiada
Suspirando de desalento, de desencanto
"Ah, quanta ilusão há no mundo!"
A tarde arde de calor e cor

Há no ar um resto de dourado
A vontade do grito, imóvel
Asco de mim

Anseio pelo vômito
Regurgito flores amarelas
Nos caminhos que ele passa

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Lembrança gostosa


Tem hora que pulam umas memórias na cabeça da gente de coisas e pessoas que há muitos anos nem pensava mais. Ontem, fui deitar no horário de sempre depois de ter feito as mesmas coisas de sempre, mas foi só botar a cabeça no travesseiro que apareceu um rapaz na minha cabeça de quem não lembrava há séculos.
Esse moço, que nunca mais vi, trabalhava comigo numa escola municipal de Goiânia. Não lembro o nome dele, mas vou chamá-lo de Hugo. Hugo era professor de biologia, fazia mestrado na época e era uma figura bem alternativa. Sempre usava camisetas de estampa indiana, calças diferentes e chinelos, sandálias, nunca tênis ou sapatos fechados. Os cabelos estavam raspados em quase toda a cabeça, exceto na nuca, na qual havia uma mexa mais longa. Usava uma barbicha comprida também. A voz era rouca, com um sorrisinho sacana sempre nos lábios, altura mediana, Hugo chamava atenção de todos os jeitos, tanto pela extravagância quanto pela beleza mesmo.
Ele fazia o gênero descolado, engraçado, mas também era inteligente e sedutor quando queria. Nós éramos os professores mais jovens do turno noturno naquela escola. Nos aproximaríamos de qualquer jeito, não só por esse motivo, mas pela própria dinâmica do ambiente ali. Tínhamos poucas salas de aula e cumpríamos 30 horas semanais de trabalho. A quantidade de aulas era pouca, por isso passávamos a maior parte do tempo na sala dos professores em atividades de planejamento e estudo. Hugo geralmente se sentava ao meu lado.
Ele conseguiu me convencer a fazer algumas traduções para ajudá-lo nas pesquisas do mestrado e se sentava junto comigo para ir acompanhando o meu trabalho, pois eu sempre precisava de ajuda em relação a termos muito técnicos. Logo, as segundas intenções dele ficaram bem claras...
Hugo não só se sentava ao meu lado, a perna dele se sentava colada na minha e os pezinhos do sujeito iam parar em cima dos meus. Confesso que apesar de achar tudo isso meio estranho, ficava bem chameguenta ali com ele encostadinho e de pezinho dado comigo debaixo da mesa. Ai, como eu queria que a gente não estivesse no ambiente de trabalho!
Era divertido! Bem divertido mesmo! A gente ficava ali brincando com o fogo dentro da gente, a mesa pouco escondendo os desejos que surgiam da cintura pra baixo e da cintura pra cima a cara de paisagem no trabalho sério de traduzir textos técnicos que descreviam como analisar a qualidade da água. E eu me derretendo de vontade de beijar o professor, mestrando de biologia, bicho grilo esquisitão...
O dia mais sério foi o de uma apresentação, não lembro de qual data comemorativa, os alunos fizeram um teatro ou coisa assim e os professores foram assistir, e o tal Hugo ficou em pé bem próximo de mim... Eu queria tanto me abraçar com ele e não podia que quase perdi as forças das pernas. Acho que ele sentiu algo parecido, porque me chamou pra sair, ir num show que estava acontecendo num bairro próximo. Nós dois sabíamos que se saíssemos dali juntos não haveria volta.
E eu respondi que não. Não podia. Por que eu fiz isso? Hugo era noivo. Falava da noiva com frequência. Todos sabiam desse noivado. E eu tinha um rolo. Um outro professor de outra escola que eu trabalhava. Nessa época, estava bem ferrenha num código de ética recém criado por mim: não ficar com dois homens ao mesmo tempo. Achava que assim não tinha perigo de me machucar demais.
Ainda dá tempo de se arrepender? O que teria acontecido se eu tivesse dito sim? O desejo que aquele homem me provocou, nunca outro fez igual. Era um desejo derretido de lava quente, mas também era engraçado e divertido, por causa da pouca seriedade e da total impossibilidade de levar isso pra frente.
Pouco tempo depois o contrato do Hugo acabou e ele foi substituído por uma moça, professora de biologia, uma gaúcha hilária. A tentação foi-se embora. E só ficou essa lembrança gostosa de ter sentido uma paixonite bem aguda, porém sem grandes consequências. Sobrou também aqui uma saudade  danada de dar o pé pra alguém por debaixo da mesa...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Abelha em flor


A abelha penetra
Na miudeza amarela
Da flor

Aos zumbidos
Cora
A flor intumescida

Suspende a saia
As pétalas estremecidas
Ao vento

Ah! Há
O amor na flor
Que chora e cai

Cai e cai
E frutifica

sábado, 22 de dezembro de 2018

Carta de Natal


Querid@s,

Está chegando a véspera de natal e eu juro que gostaria de estar escrevendo uma mensagem otimista de votos de boas festas, paz e amor... Mas não é o caso.
Estamos vindo de anos ruins desde 2014, é verdade. Entretanto, não consigo prever os problemas que enfrentaremos nos anos que virão.  2019 é um ano que ainda não consegui imaginar, porque: como podem ocorrer coisas piores que as já acontecidas?
A eleição turbulenta da presidenta Dilma, seguida de um impedimento de seu governo em 2016, por motivos ridículos, que todos sabemos que foi um tremendo golpe da direita com a intenção de retomar o poder. Mesmo reconhecendo todos os erros cometidos pelo seu governo, a injustiça deste ato foi tremenda com ela. Foi horrível! Uma coisa que não podíamos ter admitido...
Estes anos de governo Temer com seus inúmeros ataques aos direitos dos trabalhadores... que anos infelizes! Anos em que a educação e a saúde estão começando, só começando, a sofrer com a falta de investimento. Tudo impossível de engolir! Cortar gastos na pele do povo e defender os ricos empresários e latifundiários deste país, é modo de governo que foi acionado em 2016... É o que queremos mesmo?
A prisão de Lula este ano... Não sejamos ingênuas pessoas que acreditam na mídia piamente, que acreditam em juizinhos ridículos cheios de interesses escusos, líderes de lavajatos que limpam só um lado do carro. Lula foi preso para não se eleger presidente novamente. É outro caso de injustiça, ou de justiça interessada, se podemos usar assim as palavras.
Acabaram com o PT, fato. Mas, por qual motivo? Se o objetivo era acabar com a corrupção, não funcionou. A corrupção continua na ativa firme e forte e intrínseca nas nossas instituições públicas e privadas. O que fazer? Não sei. Mas demonizar e perseguir um único partido político foi só uma falácia criada para nos enganar. Aliás, funcionou bem essa falácia. Tanto que os pobres que alçaram seus primeiros vôos consumidores nos governos petistas esqueceram tudo e começaram a repetir sem parar “tudo culpa do PT”... Loucos. Tolos. Bobos. Papagaios propagadores de fake news.
Agora chego no pior de tudo: esse fenômeno chamado Bolsonaro. Nosso presidente eleito, prestes a assumir o poder... Gente, que medo! No dia do segundo turno tive dor de barriga, ansiedade e etc. Sabia que isso ia acontecer, mas estava tentando me enganar. Nosso futuro presidente da república é simplesmente a coisa mais horrível que poderia ter acontecido ao Brasil: não é só a ultradireita no poder, é a ignorância, a violência, o racismo, o machismo, a homofobia firmes e fortes e altamente legitimados. Todas essas coisas horrendas ganharam uma eleição presidencial!!!
A cara do Brasil nunca poderia ter sido mais feia.
Voltando então a minha mensagem de natal e ano novo: impossível desejar paz e amor, amig@s!
O que eu desejo de fato para tod@s nós é força: precisamos disso para as batalhas que virão! Vamos nos defender dos ataques aos nossos direitos! Eu nos conclamo à luta por nós trabalhador@s da cidade e do campo, pelas nossas escolas e universidades, pela saúde pública, pelos direitos humanos, pelos índios, pelos quilombolas, pelos lgbtts,  pelo meio ambiente e por cada um de nós! Por cada uma de nós!
Nós de fato precisamos umas das outras, uns dos outros. O que enfrentaremos é assustador... mas ainda existe em algum lugar a esperança de dias melhores. E quem fará os dias melhores somos nós, na nossa luta diária de cada dia, e na força que encontraremos de mãos dadas. O bordãozinho clichê que surgiu no fim do período eleitoral, sim: ninguém solta a mão de ninguém.
Só isso.
Festejem, mas não esqueçam: a luta continua, companheir@s!

Fabiana Lula

domingo, 14 de outubro de 2018

Adeus para nunca mais

"É preciso aprender a dizer
em silêncio
Adeus...
Até nunca mais"

Por favor,
me diga: "quando é nunca mais?"

Te espero na terra do nunca mais
Onde todos somos como crianças
mortalmente
feridas

Adeus
Nunca
Mais

(cada dia passado      como gado    ruminando sonhos)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Poesia solar


O sol

Tão quente

Tão tarde quente

Tão cheia de poesia             quente

Que sobe no ar

Feito nuvem

De fumaça de fogo

Entorpecente

Tão sol quente

Sonho

Era num barco assim que estávamos... eu, os gêmeos, a mãe deles. Era um índia, eu sabia. Muito pequena e mirrada, mãe de duas crianças. O barco era branco com azul. Tudo era muito claro. O clarão de repente tomou conta de tudo. Consumiu as crianças, a mãe e o barco.
Aos poucos o clarão diminuiu e o mundo tomou outra forma... escureceu... ficou meio marrom. Ele veio até mim, meio nebuloso, uma penumbra envolvia tudo, e me entregou um coelho pequeno e marrom.
E eu soube que era dia de esperar, de esperança, dias de vir criança ao mundo. Ela está vindo. E é um menino.

Não

Era uma noite escura
O movimento dos olhos
Ondeando
Nuvens

Ao meu lado
Ao alcance de um leve toque
Um suspiro
de não poder

Por que não eu?
Porque não...
Porque não.
Um NÃO se expande pelo universo

Uma noite escura sem estrelas
A desesperança
Assume seu posto
E diz não

                    Não
             Não
      Não

Sempre saudade

Essa saudade é faca
Que anda por dentro
Escavando buracos
Nas minhas entranhas

Essa saudade é gelo
Que fere e queima
Um coração que para
De frio

Essa saudade
Da vida
Não vivida
Do beijo
Nunca dado
Do amor
Nunca entregue

saudade aço pontudo
saudade pedra de iceberg
pesa e dói
e doerá pra sempre?

sempre saudade
do que não há?

Sempre?